O que me move
Por que eu não consigo ficar quieta.
Sou médica. Passei a vida olhando para pessoas e tentando entender o que elas têm antes que fique grave.
Em medicina, a gente aprende cedo uma coisa que parece óbvia e quase nunca é praticada: o que se torna grave quase sempre começou pequeno e silencioso. O corpo avisa antes. Quem cuida precisa agir enquanto ainda dá.
Com a violência contra a mulher acontece o mesmo. Ela não começa no feminicídio. Começa no controle. Na ameaça. Na humilhação repetida até virar rotina. No dinheiro que ela não pode ter. Nas amigas que deixou de ver. Na primeira agressão que ninguém conseguiu interromper.
O Estado não pode continuar chegando depois.
Uma mulher em situação de violência não enfrenta só o agressor. Enfrenta o medo, a conta que vence, o filho que assistiu a tudo, o emprego que pode perder se faltar mais um dia. E, para conseguir ajuda, precisa conhecer o caminho inteiro sozinha. Está invertido: não é ela que tem que decorar o sistema — é o sistema que tem que saber encontrá-la.
Tem ainda uma parte de que quase ninguém fala: quando uma criança cresce vendo violência dentro de casa, ela também está sendo atingida. Proteger a mãe e esquecer o filho é fazer metade do trabalho.
Sei o que uma deputada federal pode e o que não pode fazer, e não vou prometer o que não cabe no mandato. O que cabe, e é muito, eu faço: propor e melhorar leis, brigar por orçamento e fiscalizar até funcionar — porque recurso anunciado não é recurso entregue.